A desgraça que veio do céu.
O Sul está debaixo de água. Esta manchete surpreendeu todo o Brasil, todo o mundo, ou, ainda como dizemos comumente, “surpreendeu todo mundo”. O que não estava previsto aconteceu. Provavelmente esta imprevisão tenha causado a comoção que se vê em todo o país.
Nós que já tínhamos até esquecido de como é se comover, de repente nos vimos envolvidos nesse estranho sentimento. Talvez esses tempos violentos – violência física e econômica – nos tenham roubado a sensação de sofrer pelo sofrimento alheio.
Mas, como o brasileiro é o povo da resistência – resiste aos corruptos, resiste ao salário mínimo, resiste aos patrões gananciosos, resiste às fraudes nas eleições, resiste ao falido sistema educacional –, não resistiu à fúria da natureza.
A imprensa noticia a desgraça das suas mais variadas formas. “A convergência do atlântico”, “o solo argiloso não resiste...”, “seria preciso desviar o curso do rio que corta Itajaí por um canal”. São tantas as informações, tantas as explicações técnicas, que o telespectador/leitor fica confuso. O fato é que são quase cinqüenta mil pessoas desabrigadas, noventa e sete mortos. Informação, ainda parcial, de acordo com os meios de comunicação.
Por outro lado, o que nos desespera nesse triste episódio são os testemunhos dos sobreviventes. Assisti pela televisão alguns que agora relato: uma Senhora que sobreviveu com a filha disse que a menina ao perceber que a casa iria ruir pediu para a mãe segurar a casa e não deixá-la desabar. Não menos comovente foi o depoimento, na terça-feira, 25 de novembro, de uma menina que fazia aniversário naquele dia. Agora ela engrossa a lista dos sem-teto e quando indagada pelo jornalista o que ela mais queria no seu aniversário, a resposta ingênua afirmou: “eu queria uma festa simples”. Para quem não sabe, uma festa simples, para o pobre, é um bolo, brigadeiro que a mãe ou a vizinha prepara, sai mais barato, sobre a mesa. São as bolas penduradas, quem sabe alguns chapéus, pratos, copos e guardanapos com o tema da festa. Essa é a simples festa que a menina de sete anos queria, porém não teve.
Por fim, o último e mais doloroso testemunho veio de um rapaz de vinte e três anos que viu a casa desabar, levada por uma avalanche. Ainda ouviu o choro da filha, no entanto não houve tempo de salvá-la. Também não salvou a mulher grávida e a sogra.
Ora, como não se comover diante de tamanho sofrimento. Estou certo de que este texto trará lágrimas em muitos, eu também choro quando relembro e escrevo. Estou mais certo de que temos que nos movimentar e ajudar. Olhe o seu armário, separe umas roupas, veja se não pode doar uns lençóis, cobertores. Ah, eles precisam de água potável, veja só, água. Nós aqui temos água em abundância, ali no Sul está faltando água potável.
Em suma, se você nada doar, doe um pensamento de esperança pelos sobreviventes. Eu peço aos homens que administram esse país que tenham mais respeito pelos cidadãos. Rogo a Deus piedade pelos seres humanos.
Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2008.
O Sul está debaixo de água. Esta manchete surpreendeu todo o Brasil, todo o mundo, ou, ainda como dizemos comumente, “surpreendeu todo mundo”. O que não estava previsto aconteceu. Provavelmente esta imprevisão tenha causado a comoção que se vê em todo o país.
Nós que já tínhamos até esquecido de como é se comover, de repente nos vimos envolvidos nesse estranho sentimento. Talvez esses tempos violentos – violência física e econômica – nos tenham roubado a sensação de sofrer pelo sofrimento alheio.
Mas, como o brasileiro é o povo da resistência – resiste aos corruptos, resiste ao salário mínimo, resiste aos patrões gananciosos, resiste às fraudes nas eleições, resiste ao falido sistema educacional –, não resistiu à fúria da natureza.
A imprensa noticia a desgraça das suas mais variadas formas. “A convergência do atlântico”, “o solo argiloso não resiste...”, “seria preciso desviar o curso do rio que corta Itajaí por um canal”. São tantas as informações, tantas as explicações técnicas, que o telespectador/leitor fica confuso. O fato é que são quase cinqüenta mil pessoas desabrigadas, noventa e sete mortos. Informação, ainda parcial, de acordo com os meios de comunicação.
Por outro lado, o que nos desespera nesse triste episódio são os testemunhos dos sobreviventes. Assisti pela televisão alguns que agora relato: uma Senhora que sobreviveu com a filha disse que a menina ao perceber que a casa iria ruir pediu para a mãe segurar a casa e não deixá-la desabar. Não menos comovente foi o depoimento, na terça-feira, 25 de novembro, de uma menina que fazia aniversário naquele dia. Agora ela engrossa a lista dos sem-teto e quando indagada pelo jornalista o que ela mais queria no seu aniversário, a resposta ingênua afirmou: “eu queria uma festa simples”. Para quem não sabe, uma festa simples, para o pobre, é um bolo, brigadeiro que a mãe ou a vizinha prepara, sai mais barato, sobre a mesa. São as bolas penduradas, quem sabe alguns chapéus, pratos, copos e guardanapos com o tema da festa. Essa é a simples festa que a menina de sete anos queria, porém não teve.
Por fim, o último e mais doloroso testemunho veio de um rapaz de vinte e três anos que viu a casa desabar, levada por uma avalanche. Ainda ouviu o choro da filha, no entanto não houve tempo de salvá-la. Também não salvou a mulher grávida e a sogra.
Ora, como não se comover diante de tamanho sofrimento. Estou certo de que este texto trará lágrimas em muitos, eu também choro quando relembro e escrevo. Estou mais certo de que temos que nos movimentar e ajudar. Olhe o seu armário, separe umas roupas, veja se não pode doar uns lençóis, cobertores. Ah, eles precisam de água potável, veja só, água. Nós aqui temos água em abundância, ali no Sul está faltando água potável.
Em suma, se você nada doar, doe um pensamento de esperança pelos sobreviventes. Eu peço aos homens que administram esse país que tenham mais respeito pelos cidadãos. Rogo a Deus piedade pelos seres humanos.
Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2008.
