quinta-feira, 11 de março de 2010

Pão recheado com maconha, que tal?



É de amplo conhecimento a ousadia com que os bandidos brasileiros vêm sendo tratados nas prisões. De um lado, o precário controle estatal buscando manter a ordem; de outro lado, uma série de irregularidades que compõem o sistema prisional.
Dentre essas irregularidades, pode-se enumerar a entrada de armas, celulares, drogas, bebidas alcoólicas, entre outros. Todo esse mecanismo clandestino é processado à luz da pseudo-segurança e do pseudo controle.
Mesmo com toda essa informação, de vez em quando somos pegos de surpresa diante de mais uma inusitada amostragem de que a vida atrás das grades não é tão ruim assim. Como exemplo pode-se citar a matéria que teve amplo destaque na imprensa esta semana. Refere-se a um presídio nacional que teve como café-da-manhã pão com maconha acompanhado de cachaça. Pasmem! Pão recheado com maconha.
Ora, observa-se que a desatenta nutricionista não foi feliz no acompanhamento líquido. Acredita-se que a melhor bebida para combinar com o já famoso, apesar de jovem, pão com maconha, fosse a coca-colaína ou uma outra bebida lançada a poucos meses, a cocaína-cola. Com esse cardápio não terá meliante que não se regenere!
Por outro lado, é também surpreendente a coragem do tráfico internacional de drogas. Que a turma tenha carros, casas e apartamentos de luxo, lojas, helicópteros, tudo bem. No entanto, quando se lê que os marginais detêm um submarino é estonteante. Esta terrível notícia veio a público a pouco mais de dois anos. O astucioso jornalista não só escreveu um lúcido texto, como também ilustrou a matéria com uma bela foto do grandioso brinquedo dos criminosos.
É bom esclarecer, principalmente para quem não leu o texto nem viu a foto, que não tratava de um moderno aparelho, porém também não tratava de uma sucata. Segundo constava nos esclarecimentos sobre o relato, o submarino trafegava por mares “sempre dantes navegados”, afinal de contas não se pode precisar quando a máquina começou a operar essa nova modalidade de vender drogas.
Assim, percebe-se que o assustador café-da-manhã que incluía pão com maconha, já não assusta tanto quando do primeiro contato com o fato. Nota-se que por mais aperfeiçoada, bem preparada, bem remunerada, bem intencionada que seja a polícia brasileira, tudo indica que novas formas de subverter a lei estão sendo elaboradas neste momento. Modere o seu café-da-manhã!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Banho de mar à fantasia.

É da memória que trago as lembranças dos carnavais na Ilha do Governador na década de 70. Eu ainda estava construindo a primeira década da minha vida, isso faz tempo, pois já caminho para a quarta, ainda era uma criança, quando, levado pelo meu pai, estabeleci os primeiros contatos com a maior festa brasileira.
A paixão foi inevitável, a ponto de conseguir manter na mente até hoje trechos de sambas daquela época, como por exemplo quando a Escola de Samba Em Cima da Hora (1976) homenageou Euclides da Cunha, por meio de sua obra "Os Sertões", sobre a conhecida carnificina de Canudos: "Marcados pela própria natureza / O Nordeste do meu Brasil / Oh! solitário Sertão / De sofrimento e solidão / A terra é seca / Mal se pode cultivar / Morrem as plantas / E foge o ar / A vida é triste nesse lugar / Sertanejo é forte / Supera a miséria sem fim / Sertanejo homem forte / Dizia o poeta assim...".
Como morávamos no Zumbi, o nosso carnaval era brincado por lá. Haviam blocos que vinham de várias partes da Ilha. Me recordo como era bom aquele tempo. Jamais presenciei uma briga, e já haviam os grupos de Pierrôs que com apitos traziam movimento e euforia à festa. Muitas crianças tinham medo dos mascarados, das múmias, dos morcegos, dos velhos. Todos esses personagens faziam parte do encanto que nos envolvia. No Zumbi, ainda hoje, o carnaval é uma reunião das famílias.
Por outro lado, em outros bairros da Ilha, outras propostas carnavalescas existiam. No Cacuia a fama de violência. Muitos comentavam quase todos os anos que existia uma lista dos assassinatos que ocorreriam afixada no muro do cemitério. Era um alvoroço e brincar carnaval no Cacuia, nunca. Talvez a proximidade do Campo Santo tenha facilitado tão macabra história, coroando, por assim dizer, o medo da população. Além disso, no carnaval do Cacuia homens e mulheres podiam ficar mais desinibidos e as paqueras eram autorizadas, ainda que se tratasse de um(a) folião(ã) comprometido(a).
Mas, sem dúvidas, era na Freguesia que acontecia o carnaval mais esperado, pelo menos para nós, crianças. Durante o dia, não me lembro se sábado, domindo, segunda ou terça-feira, os blocos dos bairros desfilavam. Isso acontecia ali na Praça Calcutá, em frente a Igreja D'Ajuda. Como fazia muito calor era tradição após o desfile todos mergulharem no mar. Não era um mergulho comum, porque estávamos fantasiados. Nesse ponto é que está o interessante do relato: estávamos fantasiados de papel crepom. Aí estava o espírito do nosso carnaval. A água ficava toda colorida, nossos corpos manchavam, quando já não estavam manchados pelo processo de suor em contato com o papel. Não importava muito, o que nos alegrava era o banho de mar, as brincadeiras com o papel molhado tingindo as águas da Baía.
Em resumo, aqueles tempos, tão vivos aqui na minha memória, eram muito mais gratificantes. Não tínhamos internet, o telefone era objeto de rico, celular era invenção de maluco, a Baía da Guanabara não era esse mar de esgoto a céu aberto em que se transformou. A vida era mais simples, as pessoas se conheciam e até se cumprimentavam. O tempo passou, a Freguesia, ou melhor, a Ilha do Governador, foi abandonada pelos dirigentes. A festa de Momo aqui praticamente desapareceu.
Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2009.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

FORMANDOS 2008.
É com muita satisfação que eu recebo essa homenagem dos meus alunos. Depois de anos de intenso trabalho reconheço que parte do meu esforço foi compensado, porque vários dos nossos alunos já são praticamente Universitários. Por uma questão de formalidade falta a correção de algumas provas das Universidades, mas já sabemos que pelo empenho de cada um nesse ano de 2008, ano decisivo, o resultado é a vitória.
Toda essa alegria só está sendo possível graças ao trabalho de um grupo de professores que têm procurado desempenhar suas funções na sociedade com dignidade, ética e dedicação. O Brasil são esses profissionais, o Brasil é um país de gente que trabalha e gosta de trabalhar, gente que ganha pouco e procura administrar a sua vida com a baixa remuneração que recebe. Não é meia dúzia de bandidos, uma dúzia de corruptos que irão ofuscar o brilho do nosso país. O que seria de vocês se nós professores não tivéssemos exigido o que exigimos. Sei perfeitamente que muitas vezes somos os algozes do processo, mas também sei que se não fosse assim vocês não chegariam aonde chegaram. Muitos aqui presentes concordam que valeu a pena todo esse sacrifício. Muitos podem lembrar as inúmeras vezes em que pedi silêncio, briguei para que lessem mais, proibi sair de sala, até o já conhecido “cala a boca e ouve! Quem manda aqui sou eu”. É, meus caros alunos, tudo foi dito com pesar, só que precisava ocultar essa piedade para, por meio do rigor, apontá-los a seriedade dessa fase de suas vidas. Perdoem-me, eu inúmeras vezes seria menos rigoroso, mas se não agisse com energia não sei se vocês não cairiam em desatenção e a importante disciplina seria deixada de lado.
Por outro lado, parte integrante desse processo não pode deixar de ser mencionada. Estou me referindo aos responsáveis de nossos alunos. Lembra mãe quantas noites acordada velando seu filho, lembra quantos sustos ele pregou quando ainda era bebê e você achou que ele estava se sufocando, lembra quando ele andou pela primeira vez, lembra da primeira palavra. Hoje seu filho já é um ser humano formado, já sabe distinguir o certo do errado, já sabe pedir desculpas porque eu também procurei ensinar isso a ele. Além disso, eu disse para o seu filho que o mais importante na vida é a família. Orientei o seu filho explicando que ele não abandone seus pais, que na velhice ele procure amar o seu responsável com o mesmo amor que ele foi recebido nesse mundo. Que na velhice ele seja paciente, que quando o seu velhinho disser “eu quero isso, quero aquilo, me leve aqui, me apanhe ali”, muitas vezes embaralhando o raciocínio do filho, que ele releve essa confusão e lembre que ele só está onde está graças a esse homem e essa mulher que enfrentaram o mundo, deixaram de lado suas vaidades, seus sonhos, suas noites de sono, para viver para eles. Tenho dito para os seus filhos que o amor é incondicional, só o amor salva as almas, só o amor nos leva a Deus.
Quem aqui presente não daria tudo, tudo - carro, casa, jóias - para ter de volta aquele ente querido que já partiu dessa vida. Lembra quando ele aqui estava, quanta alegria, que ombro para nós chorarmos nossas dores, aquela figura humana que muito nos ajudou. Pois é, a vida é assim, só compete nos conformarmos com a ordem divina.
Em síntese, se eu tivesse que dar a última aula para vocês, eu repetiria o que já disse: amem os seus responsáveis. Façam por eles tudo. Esse velhinho insistente, nervoso e impaciente foi quem te deu a vida, não se esqueça disso. Essa é a maior lição que um aluno deve levar dentro do seu coração, pela vida afora, para sempre.
Obrigado pelos alunos que vocês foram para todos nós, professores.
Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 2008.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A desgraça que veio do céu.

O Sul está debaixo de água. Esta manchete surpreendeu todo o Brasil, todo o mundo, ou, ainda como dizemos comumente, “surpreendeu todo mundo”. O que não estava previsto aconteceu. Provavelmente esta imprevisão tenha causado a comoção que se vê em todo o país.
Nós que já tínhamos até esquecido de como é se comover, de repente nos vimos envolvidos nesse estranho sentimento. Talvez esses tempos violentos – violência física e econômica – nos tenham roubado a sensação de sofrer pelo sofrimento alheio.
Mas, como o brasileiro é o povo da resistência – resiste aos corruptos, resiste ao salário mínimo, resiste aos patrões gananciosos, resiste às fraudes nas eleições, resiste ao falido sistema educacional –, não resistiu à fúria da natureza.
A imprensa noticia a desgraça das suas mais variadas formas. “A convergência do atlântico”, “o solo argiloso não resiste...”, “seria preciso desviar o curso do rio que corta Itajaí por um canal”. São tantas as informações, tantas as explicações técnicas, que o telespectador/leitor fica confuso. O fato é que são quase cinqüenta mil pessoas desabrigadas, noventa e sete mortos. Informação, ainda parcial, de acordo com os meios de comunicação.
Por outro lado, o que nos desespera nesse triste episódio são os testemunhos dos sobreviventes. Assisti pela televisão alguns que agora relato: uma Senhora que sobreviveu com a filha disse que a menina ao perceber que a casa iria ruir pediu para a mãe segurar a casa e não deixá-la desabar. Não menos comovente foi o depoimento, na terça-feira, 25 de novembro, de uma menina que fazia aniversário naquele dia. Agora ela engrossa a lista dos sem-teto e quando indagada pelo jornalista o que ela mais queria no seu aniversário, a resposta ingênua afirmou: “eu queria uma festa simples”. Para quem não sabe, uma festa simples, para o pobre, é um bolo, brigadeiro que a mãe ou a vizinha prepara, sai mais barato, sobre a mesa. São as bolas penduradas, quem sabe alguns chapéus, pratos, copos e guardanapos com o tema da festa. Essa é a simples festa que a menina de sete anos queria, porém não teve.
Por fim, o último e mais doloroso testemunho veio de um rapaz de vinte e três anos que viu a casa desabar, levada por uma avalanche. Ainda ouviu o choro da filha, no entanto não houve tempo de salvá-la. Também não salvou a mulher grávida e a sogra.
Ora, como não se comover diante de tamanho sofrimento. Estou certo de que este texto trará lágrimas em muitos, eu também choro quando relembro e escrevo. Estou mais certo de que temos que nos movimentar e ajudar. Olhe o seu armário, separe umas roupas, veja se não pode doar uns lençóis, cobertores. Ah, eles precisam de água potável, veja só, água. Nós aqui temos água em abundância, ali no Sul está faltando água potável.
Em suma, se você nada doar, doe um pensamento de esperança pelos sobreviventes. Eu peço aos homens que administram esse país que tenham mais respeito pelos cidadãos. Rogo a Deus piedade pelos seres humanos.

Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2008.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Papai Noel pelo avesso.


A impressão que se tem, e creio que muitos pensem assim, é que não há mais fronteira entre as festas típicas do ano. Mal termina uma e já começa a outra. Ou melhor, uma ainda nem terminou e a propaganda da outra já está pedindo passagem.
Faz poucos meses estávamos comendo canjica, cocada, pé-de-moleque. Era meio do ano e as festas juninas despontavam no céu carioca.
De repente, anunciaram que era “dia dos pais”. Corre para o shopping, procura daqui, fuça dali e pronto, aqui está o presente que é “a cara dele”.
Quando ainda estamos desgastando o almoço do famoso domingo, já assistimos, em tempo real, o anúncio do dia das crianças.
Mas, nesse meio termo acontece a conhecida festa de Cosme e Damião. Esta não tem comercial, também não precisa. Basta chegar setembro para os nervos das crianças despertarem o dia 27.
Ainda nem terminou outubro, ainda não choramos nossos mortos e Papai Noel já acena para nós. Falta um pouco menos de dois meses para o Natal, no entanto as lojas já estão vermelhas. Aliás, esse Papai Noel é a figura mais estranha do nosso folclore tipo exportação. Como pode, um calor desgraçado, e o bom velhinho, coitado, para baixo e para cima atraindo o público, consumidor, é claro.
Como o texto insiste em seguir essa linha, e não se deve contrariar um texto, aí vai: qualquer ano teremos uma única festa, porque o Papai Noel virá fantasiado de coelho da Páscoa, distribuindo saquinhos de doce, presenteando ou amando as mães, esculhambando os pais reprodutores, dançando samba em plena Cinelândia.
Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2008.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Tarde de outono.

Luciano caminhava lento, os braços soltos, coração com marcação descompassada, óculos no rosto, cabelos ao vento da tarde que começava a chegar.
O que acontecera minutos antes não lhe saia da mente. O quadro era tão intenso, tão real, tão vivo na sua mente, que por loucura ou desespero Luciano se achava em sonho.
O pensamento ia e vinha. Numa dessas voltas eis que Luciano percebe um dado novo para sua recente experiência.
Passos lentos, mente solta, eis que Luciano troca de calçada e se depara com aquela mulher, fisicamente horrível, mas de uma beleza incomum no olhar. Luciano mergulha naqueles olhos, sente tontura e de repente se vê num grande baile estudantil. No salão casais jovens e entusiasmados bailam como os cisnes em suas misteriosas formas. Luciano penetra no ambiente sem ser notado pelos dançantes. Percorre o pequeno salão, se aproxima, cumprimenta, repete o cumprimento, sacode, grita e nada, nada convence o corpo daquele espaço.
Luciano desiste das pessoas e passa aos objetos. Nesse momento observa os móveis, as roupas dos estudantes, as paredes pintadas com um branco neve com o assoalho em madeira. Nota que nas paredes existem muitos quadros, e passa a admirá-los. São tantos, musas, paisagens naturais, jarros de flores, mulheres vestidas e despidas. Essas últimas prendem mais a atenção de Luciano. Ele persegue todas, indiscriminadamente. Quando passa de uma tela a outra, eis o choque: Luciano esfrega os olhos e se depara com a mulher da calçada que some entre os passantes.
Luciano continua seu caminho. Lento, os braços soltos, coração com marcação descompassada, óculos no rosto, cabelos expostos às primeiras gotas da chuva que começa a cair nessa fria tarde de outono.

Rio de Janeiro, 26 de março de 1998.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Salve São Cosme e São Damião.


Todo ano, no dia 27 de setembro, por meio de uma tradição que não se pode afirmar exatamente quando começou, é comum as crianças saírem às ruas para buscar os seus doces. Esta festa já faz parte das tradições brasileiras. Especialmente no Rio de Janeiro, este dia fica repleto de crianças de todas as classes, que correm ao pequeno anúncio de “ali tá dando”, “ali vai dá”.
O interessante é que mesmo seguindo uma religião que proíba expressamente esse tipo de culto, muitas crianças driblam seus pais e atiram-se rumo a saga da busca pelos famosos saquinhos. Esta constatação demonstra claramente que inclusive a religião no Brasil é híbrida, o que é muito bom. Quanto mais misturada, mais rica torna-se a cultura de um povo, e neste sentido nós somos de dar inveja ao resto do mundo.
Ao ver hoje a alegria e o tumulto provocado pela corrida aos doces, lembro-me com clareza da minha infância, que deve ter sido a infância de muitos. Já na véspera do dia 27 nós dormíamos com todos os planos na cabeça, inclusive já com um roteiro pré-elaborado: primeiro percorrer as casas que deram cartão e distribuirão os doces pela manhã. À tarde buscar os doces cujos cartões foram designados para esta parte do dia. Trajeto estabelecido dormíamos com o pensamento no dia seguinte, ávidos de que a noite terminasse.
Mas, ao amanhecer, logo depois do rápido café da manhã, saímos com nosso velho grupo de amigos e a jornada começava. Rapidamente o plano pensado e esquematizado na noite anterior caía por terra, pois a cada grupo que encontrávamos e que nos informava sobre eventual distribuição em determinada rua, corríamos imediatamente no endereço sugerido e pronto: empurra daqui, grita dali – moça! moça! aqui! – a confusão estava formada e o delírio se estendia a pequenas brigas por um “lugar ao sol”. Tudo indica que desde cedo a vida nos sugere que este lugar é para poucos.
Se naquela casa não fôssemos bem sucedidos, nada de tristeza, o dia está começando e além dos cartões que já são uma garantia, sabíamos aqueles endereços que eram certos. Dona Selma não dava cartão, mas todo ano cumpria uma promessa que havia feito aos Santos para a cura de um filho pequeno enfermo. Como o menino ficou curado, não dava outra, Dona Selma cumpria a promessa que já se estendia aos sete anos. Acredito que a alegria das crianças contaminava Dona Selma e ela, mesmo dizendo que já havia terminado a promessa, fazia da distribuição de saquinhos um ritual.
Também me recordo das casas que ofereciam bolo e guaraná. Formava-se uma fila imensa no portão, empurra pra cá, empurra pra lá, a dona da casa aparecia e gritava que sem ordem não cortaria o bolo. Mal entrava e a algazarra reiniciava com gritos e comentários sobre o fato do saquinho da Dona Cetina estar pobre naquele ano: “é uma pipoca e duas balas!”, afirmávamos às vezes com raiva. Grita daqui, chama dali, finalmente o bolo seria cortado e começávamos a entrar para ganharmos o nosso quinhão. Depois de algumas horas de caminhada já dispensávamos as casas com bolo e guaraná, o que nos interessava eram os saquinhos.
Muitas vezes ficávamos na fila para agirmos com nosso sadismo diante dos outros. Enquanto empurra daqui, aperta dali, era comuníssimo darmos beliscões ou o famoso “taca na nuca”, explico-me: essa brincadeira consistia em fortes tapas que aplicávamos na cabeça de colegas que estavam um pouco mais à frente de nós. A confusão se formava. Foi você, não foi, foi, não foi, o grupo que estava no fim da fila empurrava e o aperto era inevitável. Gritava-se, os mais irritados saíam da fila, o que configurava a perda do lugar: “foi à roça, perdeu a carroça”. Pronto, a discussão começava, ameaças de “vou te pegar”, alguns até choravam, tamanho era o ódio.
Apesar da dura jornada, sinto que éramos muito felizes. Nossas disputas tinham muito de molecagem. Nossas investidas contra os muros, portões e grades das casas tinham muito de competição. Não a competição gananciosa, mas aquela competição que impunha orgulho por ter conseguido só em determinada casa, três sacos, “fica o segredo entre nós, eu te dou um e você cala a boca”. Tudo isso não passava de uma brincadeira da meninice, quando nossos dias não tinham o sabor amargo da competição destrutiva do mundo adulto.
E por falar em sabor, me dá água na boca recordar os doces que ganhávamos: mariola, pipoca (não a de microondas, que por sinal é horrível), falo daquela pipoca de saco vermelho, que tinha gosto de isopor e era bem doce, apesar de muitas vezes vir bem queimada e dura. Que dizer dos suspiros, da maria mole que tinha um apelido indecente, lembra? Que saudade do peitinho de moça, das cocadas, das balas, dos pirulitos, do pé-de-moleque, do doce de leite com amendoim, do próprio amendoim, da paçoca, do doce de abóbora, batata, dos chicletes, cada um mais colorido que o outro, a casquinha de goiabada...
Em suma, o tempo limita nossas ações, mas a memória, essa salutar herança humana é capaz de nos levar a outros tempos, tempos já esquecidos, tempos de alegria e esperança, tempos de liberdade e fé. Fé de que no ano que vem tudo se repete, fé de que a vida retomará a sua velha trajetória. Mais uma vez seremos despertados de nosso passado ao som estridente de “ali ta dando, cocô de rato vai levando”. Salve São Cosme e São Damião.

Rio de Janeiro, 27 de setembro de 2007.