Salve São Cosme e São Damião.
Todo ano, no dia 27 de setembro, por meio de uma tradição que não se pode afirmar exatamente quando começou, é comum as crianças saírem às ruas para buscar os seus doces. Esta festa já faz parte das tradições brasileiras. Especialmente no Rio de Janeiro, este dia fica repleto de crianças de todas as classes, que correm ao pequeno anúncio de “ali tá dando”, “ali vai dá”.
O interessante é que mesmo seguindo uma religião que proíba expressamente esse tipo de culto, muitas crianças driblam seus pais e atiram-se rumo a saga da busca pelos famosos saquinhos. Esta constatação demonstra claramente que inclusive a religião no Brasil é híbrida, o que é muito bom. Quanto mais misturada, mais rica torna-se a cultura de um povo, e neste sentido nós somos de dar inveja ao resto do mundo.
Ao ver hoje a alegria e o tumulto provocado pela corrida aos doces, lembro-me com clareza da minha infância, que deve ter sido a infância de muitos. Já na véspera do dia 27 nós dormíamos com todos os planos na cabeça, inclusive já com um roteiro pré-elaborado: primeiro percorrer as casas que deram cartão e distribuirão os doces pela manhã. À tarde buscar os doces cujos cartões foram designados para esta parte do dia. Trajeto estabelecido dormíamos com o pensamento no dia seguinte, ávidos de que a noite terminasse.
Mas, ao amanhecer, logo depois do rápido café da manhã, saímos com nosso velho grupo de amigos e a jornada começava. Rapidamente o plano pensado e esquematizado na noite anterior caía por terra, pois a cada grupo que encontrávamos e que nos informava sobre eventual distribuição em determinada rua, corríamos imediatamente no endereço sugerido e pronto: empurra daqui, grita dali – moça! moça! aqui! – a confusão estava formada e o delírio se estendia a pequenas brigas por um “lugar ao sol”. Tudo indica que desde cedo a vida nos sugere que este lugar é para poucos.
Se naquela casa não fôssemos bem sucedidos, nada de tristeza, o dia está começando e além dos cartões que já são uma garantia, sabíamos aqueles endereços que eram certos. Dona Selma não dava cartão, mas todo ano cumpria uma promessa que havia feito aos Santos para a cura de um filho pequeno enfermo. Como o menino ficou curado, não dava outra, Dona Selma cumpria a promessa que já se estendia aos sete anos. Acredito que a alegria das crianças contaminava Dona Selma e ela, mesmo dizendo que já havia terminado a promessa, fazia da distribuição de saquinhos um ritual.
Também me recordo das casas que ofereciam bolo e guaraná. Formava-se uma fila imensa no portão, empurra pra cá, empurra pra lá, a dona da casa aparecia e gritava que sem ordem não cortaria o bolo. Mal entrava e a algazarra reiniciava com gritos e comentários sobre o fato do saquinho da Dona Cetina estar pobre naquele ano: “é uma pipoca e duas balas!”, afirmávamos às vezes com raiva. Grita daqui, chama dali, finalmente o bolo seria cortado e começávamos a entrar para ganharmos o nosso quinhão. Depois de algumas horas de caminhada já dispensávamos as casas com bolo e guaraná, o que nos interessava eram os saquinhos.
Muitas vezes ficávamos na fila para agirmos com nosso sadismo diante dos outros. Enquanto empurra daqui, aperta dali, era comuníssimo darmos beliscões ou o famoso “taca na nuca”, explico-me: essa brincadeira consistia em fortes tapas que aplicávamos na cabeça de colegas que estavam um pouco mais à frente de nós. A confusão se formava. Foi você, não foi, foi, não foi, o grupo que estava no fim da fila empurrava e o aperto era inevitável. Gritava-se, os mais irritados saíam da fila, o que configurava a perda do lugar: “foi à roça, perdeu a carroça”. Pronto, a discussão começava, ameaças de “vou te pegar”, alguns até choravam, tamanho era o ódio.
Apesar da dura jornada, sinto que éramos muito felizes. Nossas disputas tinham muito de molecagem. Nossas investidas contra os muros, portões e grades das casas tinham muito de competição. Não a competição gananciosa, mas aquela competição que impunha orgulho por ter conseguido só em determinada casa, três sacos, “fica o segredo entre nós, eu te dou um e você cala a boca”. Tudo isso não passava de uma brincadeira da meninice, quando nossos dias não tinham o sabor amargo da competição destrutiva do mundo adulto.
E por falar em sabor, me dá água na boca recordar os doces que ganhávamos: mariola, pipoca (não a de microondas, que por sinal é horrível), falo daquela pipoca de saco vermelho, que tinha gosto de isopor e era bem doce, apesar de muitas vezes vir bem queimada e dura. Que dizer dos suspiros, da maria mole que tinha um apelido indecente, lembra? Que saudade do peitinho de moça, das cocadas, das balas, dos pirulitos, do pé-de-moleque, do doce de leite com amendoim, do próprio amendoim, da paçoca, do doce de abóbora, batata, dos chicletes, cada um mais colorido que o outro, a casquinha de goiabada...
Em suma, o tempo limita nossas ações, mas a memória, essa salutar herança humana é capaz de nos levar a outros tempos, tempos já esquecidos, tempos de alegria e esperança, tempos de liberdade e fé. Fé de que no ano que vem tudo se repete, fé de que a vida retomará a sua velha trajetória. Mais uma vez seremos despertados de nosso passado ao som estridente de “ali ta dando, cocô de rato vai levando”. Salve São Cosme e São Damião.
Rio de Janeiro, 27 de setembro de 2007.