quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Papai Noel pelo avesso.


A impressão que se tem, e creio que muitos pensem assim, é que não há mais fronteira entre as festas típicas do ano. Mal termina uma e já começa a outra. Ou melhor, uma ainda nem terminou e a propaganda da outra já está pedindo passagem.
Faz poucos meses estávamos comendo canjica, cocada, pé-de-moleque. Era meio do ano e as festas juninas despontavam no céu carioca.
De repente, anunciaram que era “dia dos pais”. Corre para o shopping, procura daqui, fuça dali e pronto, aqui está o presente que é “a cara dele”.
Quando ainda estamos desgastando o almoço do famoso domingo, já assistimos, em tempo real, o anúncio do dia das crianças.
Mas, nesse meio termo acontece a conhecida festa de Cosme e Damião. Esta não tem comercial, também não precisa. Basta chegar setembro para os nervos das crianças despertarem o dia 27.
Ainda nem terminou outubro, ainda não choramos nossos mortos e Papai Noel já acena para nós. Falta um pouco menos de dois meses para o Natal, no entanto as lojas já estão vermelhas. Aliás, esse Papai Noel é a figura mais estranha do nosso folclore tipo exportação. Como pode, um calor desgraçado, e o bom velhinho, coitado, para baixo e para cima atraindo o público, consumidor, é claro.
Como o texto insiste em seguir essa linha, e não se deve contrariar um texto, aí vai: qualquer ano teremos uma única festa, porque o Papai Noel virá fantasiado de coelho da Páscoa, distribuindo saquinhos de doce, presenteando ou amando as mães, esculhambando os pais reprodutores, dançando samba em plena Cinelândia.
Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2008.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Tarde de outono.

Luciano caminhava lento, os braços soltos, coração com marcação descompassada, óculos no rosto, cabelos ao vento da tarde que começava a chegar.
O que acontecera minutos antes não lhe saia da mente. O quadro era tão intenso, tão real, tão vivo na sua mente, que por loucura ou desespero Luciano se achava em sonho.
O pensamento ia e vinha. Numa dessas voltas eis que Luciano percebe um dado novo para sua recente experiência.
Passos lentos, mente solta, eis que Luciano troca de calçada e se depara com aquela mulher, fisicamente horrível, mas de uma beleza incomum no olhar. Luciano mergulha naqueles olhos, sente tontura e de repente se vê num grande baile estudantil. No salão casais jovens e entusiasmados bailam como os cisnes em suas misteriosas formas. Luciano penetra no ambiente sem ser notado pelos dançantes. Percorre o pequeno salão, se aproxima, cumprimenta, repete o cumprimento, sacode, grita e nada, nada convence o corpo daquele espaço.
Luciano desiste das pessoas e passa aos objetos. Nesse momento observa os móveis, as roupas dos estudantes, as paredes pintadas com um branco neve com o assoalho em madeira. Nota que nas paredes existem muitos quadros, e passa a admirá-los. São tantos, musas, paisagens naturais, jarros de flores, mulheres vestidas e despidas. Essas últimas prendem mais a atenção de Luciano. Ele persegue todas, indiscriminadamente. Quando passa de uma tela a outra, eis o choque: Luciano esfrega os olhos e se depara com a mulher da calçada que some entre os passantes.
Luciano continua seu caminho. Lento, os braços soltos, coração com marcação descompassada, óculos no rosto, cabelos expostos às primeiras gotas da chuva que começa a cair nessa fria tarde de outono.

Rio de Janeiro, 26 de março de 1998.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Salve São Cosme e São Damião.


Todo ano, no dia 27 de setembro, por meio de uma tradição que não se pode afirmar exatamente quando começou, é comum as crianças saírem às ruas para buscar os seus doces. Esta festa já faz parte das tradições brasileiras. Especialmente no Rio de Janeiro, este dia fica repleto de crianças de todas as classes, que correm ao pequeno anúncio de “ali tá dando”, “ali vai dá”.
O interessante é que mesmo seguindo uma religião que proíba expressamente esse tipo de culto, muitas crianças driblam seus pais e atiram-se rumo a saga da busca pelos famosos saquinhos. Esta constatação demonstra claramente que inclusive a religião no Brasil é híbrida, o que é muito bom. Quanto mais misturada, mais rica torna-se a cultura de um povo, e neste sentido nós somos de dar inveja ao resto do mundo.
Ao ver hoje a alegria e o tumulto provocado pela corrida aos doces, lembro-me com clareza da minha infância, que deve ter sido a infância de muitos. Já na véspera do dia 27 nós dormíamos com todos os planos na cabeça, inclusive já com um roteiro pré-elaborado: primeiro percorrer as casas que deram cartão e distribuirão os doces pela manhã. À tarde buscar os doces cujos cartões foram designados para esta parte do dia. Trajeto estabelecido dormíamos com o pensamento no dia seguinte, ávidos de que a noite terminasse.
Mas, ao amanhecer, logo depois do rápido café da manhã, saímos com nosso velho grupo de amigos e a jornada começava. Rapidamente o plano pensado e esquematizado na noite anterior caía por terra, pois a cada grupo que encontrávamos e que nos informava sobre eventual distribuição em determinada rua, corríamos imediatamente no endereço sugerido e pronto: empurra daqui, grita dali – moça! moça! aqui! – a confusão estava formada e o delírio se estendia a pequenas brigas por um “lugar ao sol”. Tudo indica que desde cedo a vida nos sugere que este lugar é para poucos.
Se naquela casa não fôssemos bem sucedidos, nada de tristeza, o dia está começando e além dos cartões que já são uma garantia, sabíamos aqueles endereços que eram certos. Dona Selma não dava cartão, mas todo ano cumpria uma promessa que havia feito aos Santos para a cura de um filho pequeno enfermo. Como o menino ficou curado, não dava outra, Dona Selma cumpria a promessa que já se estendia aos sete anos. Acredito que a alegria das crianças contaminava Dona Selma e ela, mesmo dizendo que já havia terminado a promessa, fazia da distribuição de saquinhos um ritual.
Também me recordo das casas que ofereciam bolo e guaraná. Formava-se uma fila imensa no portão, empurra pra cá, empurra pra lá, a dona da casa aparecia e gritava que sem ordem não cortaria o bolo. Mal entrava e a algazarra reiniciava com gritos e comentários sobre o fato do saquinho da Dona Cetina estar pobre naquele ano: “é uma pipoca e duas balas!”, afirmávamos às vezes com raiva. Grita daqui, chama dali, finalmente o bolo seria cortado e começávamos a entrar para ganharmos o nosso quinhão. Depois de algumas horas de caminhada já dispensávamos as casas com bolo e guaraná, o que nos interessava eram os saquinhos.
Muitas vezes ficávamos na fila para agirmos com nosso sadismo diante dos outros. Enquanto empurra daqui, aperta dali, era comuníssimo darmos beliscões ou o famoso “taca na nuca”, explico-me: essa brincadeira consistia em fortes tapas que aplicávamos na cabeça de colegas que estavam um pouco mais à frente de nós. A confusão se formava. Foi você, não foi, foi, não foi, o grupo que estava no fim da fila empurrava e o aperto era inevitável. Gritava-se, os mais irritados saíam da fila, o que configurava a perda do lugar: “foi à roça, perdeu a carroça”. Pronto, a discussão começava, ameaças de “vou te pegar”, alguns até choravam, tamanho era o ódio.
Apesar da dura jornada, sinto que éramos muito felizes. Nossas disputas tinham muito de molecagem. Nossas investidas contra os muros, portões e grades das casas tinham muito de competição. Não a competição gananciosa, mas aquela competição que impunha orgulho por ter conseguido só em determinada casa, três sacos, “fica o segredo entre nós, eu te dou um e você cala a boca”. Tudo isso não passava de uma brincadeira da meninice, quando nossos dias não tinham o sabor amargo da competição destrutiva do mundo adulto.
E por falar em sabor, me dá água na boca recordar os doces que ganhávamos: mariola, pipoca (não a de microondas, que por sinal é horrível), falo daquela pipoca de saco vermelho, que tinha gosto de isopor e era bem doce, apesar de muitas vezes vir bem queimada e dura. Que dizer dos suspiros, da maria mole que tinha um apelido indecente, lembra? Que saudade do peitinho de moça, das cocadas, das balas, dos pirulitos, do pé-de-moleque, do doce de leite com amendoim, do próprio amendoim, da paçoca, do doce de abóbora, batata, dos chicletes, cada um mais colorido que o outro, a casquinha de goiabada...
Em suma, o tempo limita nossas ações, mas a memória, essa salutar herança humana é capaz de nos levar a outros tempos, tempos já esquecidos, tempos de alegria e esperança, tempos de liberdade e fé. Fé de que no ano que vem tudo se repete, fé de que a vida retomará a sua velha trajetória. Mais uma vez seremos despertados de nosso passado ao som estridente de “ali ta dando, cocô de rato vai levando”. Salve São Cosme e São Damião.

Rio de Janeiro, 27 de setembro de 2007.