É da memória que trago as lembranças dos carnavais na Ilha do Governador na década de 70. Eu ainda estava construindo a primeira década da minha vida, isso faz tempo, pois já caminho para a quarta, ainda era uma criança, quando, levado pelo meu pai, estabeleci os primeiros contatos com a maior festa brasileira.
A paixão foi inevitável, a ponto de conseguir manter na mente até hoje trechos de sambas daquela época, como por exemplo quando a Escola de Samba Em Cima da Hora (1976) homenageou Euclides da Cunha, por meio de sua obra "Os Sertões", sobre a conhecida carnificina de Canudos: "Marcados pela própria natureza / O Nordeste do meu Brasil / Oh! solitário Sertão / De sofrimento e solidão / A terra é seca / Mal se pode cultivar / Morrem as plantas / E foge o ar / A vida é triste nesse lugar / Sertanejo é forte / Supera a miséria sem fim / Sertanejo homem forte / Dizia o poeta assim...".
Como morávamos no Zumbi, o nosso carnaval era brincado por lá. Haviam blocos que vinham de várias partes da Ilha. Me recordo como era bom aquele tempo. Jamais presenciei uma briga, e já haviam os grupos de Pierrôs que com apitos traziam movimento e euforia à festa. Muitas crianças tinham medo dos mascarados, das múmias, dos morcegos, dos velhos. Todos esses personagens faziam parte do encanto que nos envolvia. No Zumbi, ainda hoje, o carnaval é uma reunião das famílias.
Por outro lado, em outros bairros da Ilha, outras propostas carnavalescas existiam. No Cacuia a fama de violência. Muitos comentavam quase todos os anos que existia uma lista dos assassinatos que ocorreriam afixada no muro do cemitério. Era um alvoroço e brincar carnaval no Cacuia, nunca. Talvez a proximidade do Campo Santo tenha facilitado tão macabra história, coroando, por assim dizer, o medo da população. Além disso, no carnaval do Cacuia homens e mulheres podiam ficar mais desinibidos e as paqueras eram autorizadas, ainda que se tratasse de um(a) folião(ã) comprometido(a).
Mas, sem dúvidas, era na Freguesia que acontecia o carnaval mais esperado, pelo menos para nós, crianças. Durante o dia, não me lembro se sábado, domindo, segunda ou terça-feira, os blocos dos bairros desfilavam. Isso acontecia ali na Praça Calcutá, em frente a Igreja D'Ajuda. Como fazia muito calor era tradição após o desfile todos mergulharem no mar. Não era um mergulho comum, porque estávamos fantasiados. Nesse ponto é que está o interessante do relato: estávamos fantasiados de papel crepom. Aí estava o espírito do nosso carnaval. A água ficava toda colorida, nossos corpos manchavam, quando já não estavam manchados pelo processo de suor em contato com o papel. Não importava muito, o que nos alegrava era o banho de mar, as brincadeiras com o papel molhado tingindo as águas da Baía.
Em resumo, aqueles tempos, tão vivos aqui na minha memória, eram muito mais gratificantes. Não tínhamos internet, o telefone era objeto de rico, celular era invenção de maluco, a Baía da Guanabara não era esse mar de esgoto a céu aberto em que se transformou. A vida era mais simples, as pessoas se conheciam e até se cumprimentavam. O tempo passou, a Freguesia, ou melhor, a Ilha do Governador, foi abandonada pelos dirigentes. A festa de Momo aqui praticamente desapareceu.
Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2009.

5 comentários:
Esse post me fez lembra uma tia falecida que contava com muita saudade como eram os carnavais das décadas de 50 e 60. Adoraria voltar ao tempo e viver esses 4 dias como antigamente. O máximo que pude aproveitar foram os bailes pras crianças no Clube do Jequiá. Infelizmente, tudo isso se perdeu no tempo.
Que triste realidade...
Pelo menos tens uma boa recordação.
[ Mas e a saudade? O que fazemos com ela? ]
O André é foda ! :)
É sem dúvidas o professor que eu mais admiro .
Que pena que as festas já não mais assim calmas, agora para qualquer coisa já tem briga.
Também queria ter conhecido a Baía de Guanabara quando era limpa, aliviaria nos dias de calores por que temos passado.
Abração André !!
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