segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Banho de mar à fantasia.

É da memória que trago as lembranças dos carnavais na Ilha do Governador na década de 70. Eu ainda estava construindo a primeira década da minha vida, isso faz tempo, pois já caminho para a quarta, ainda era uma criança, quando, levado pelo meu pai, estabeleci os primeiros contatos com a maior festa brasileira.
A paixão foi inevitável, a ponto de conseguir manter na mente até hoje trechos de sambas daquela época, como por exemplo quando a Escola de Samba Em Cima da Hora (1976) homenageou Euclides da Cunha, por meio de sua obra "Os Sertões", sobre a conhecida carnificina de Canudos: "Marcados pela própria natureza / O Nordeste do meu Brasil / Oh! solitário Sertão / De sofrimento e solidão / A terra é seca / Mal se pode cultivar / Morrem as plantas / E foge o ar / A vida é triste nesse lugar / Sertanejo é forte / Supera a miséria sem fim / Sertanejo homem forte / Dizia o poeta assim...".
Como morávamos no Zumbi, o nosso carnaval era brincado por lá. Haviam blocos que vinham de várias partes da Ilha. Me recordo como era bom aquele tempo. Jamais presenciei uma briga, e já haviam os grupos de Pierrôs que com apitos traziam movimento e euforia à festa. Muitas crianças tinham medo dos mascarados, das múmias, dos morcegos, dos velhos. Todos esses personagens faziam parte do encanto que nos envolvia. No Zumbi, ainda hoje, o carnaval é uma reunião das famílias.
Por outro lado, em outros bairros da Ilha, outras propostas carnavalescas existiam. No Cacuia a fama de violência. Muitos comentavam quase todos os anos que existia uma lista dos assassinatos que ocorreriam afixada no muro do cemitério. Era um alvoroço e brincar carnaval no Cacuia, nunca. Talvez a proximidade do Campo Santo tenha facilitado tão macabra história, coroando, por assim dizer, o medo da população. Além disso, no carnaval do Cacuia homens e mulheres podiam ficar mais desinibidos e as paqueras eram autorizadas, ainda que se tratasse de um(a) folião(ã) comprometido(a).
Mas, sem dúvidas, era na Freguesia que acontecia o carnaval mais esperado, pelo menos para nós, crianças. Durante o dia, não me lembro se sábado, domindo, segunda ou terça-feira, os blocos dos bairros desfilavam. Isso acontecia ali na Praça Calcutá, em frente a Igreja D'Ajuda. Como fazia muito calor era tradição após o desfile todos mergulharem no mar. Não era um mergulho comum, porque estávamos fantasiados. Nesse ponto é que está o interessante do relato: estávamos fantasiados de papel crepom. Aí estava o espírito do nosso carnaval. A água ficava toda colorida, nossos corpos manchavam, quando já não estavam manchados pelo processo de suor em contato com o papel. Não importava muito, o que nos alegrava era o banho de mar, as brincadeiras com o papel molhado tingindo as águas da Baía.
Em resumo, aqueles tempos, tão vivos aqui na minha memória, eram muito mais gratificantes. Não tínhamos internet, o telefone era objeto de rico, celular era invenção de maluco, a Baía da Guanabara não era esse mar de esgoto a céu aberto em que se transformou. A vida era mais simples, as pessoas se conheciam e até se cumprimentavam. O tempo passou, a Freguesia, ou melhor, a Ilha do Governador, foi abandonada pelos dirigentes. A festa de Momo aqui praticamente desapareceu.
Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2009.

5 comentários:

Anônimo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria Eugênia disse...

Esse post me fez lembra uma tia falecida que contava com muita saudade como eram os carnavais das décadas de 50 e 60. Adoraria voltar ao tempo e viver esses 4 dias como antigamente. O máximo que pude aproveitar foram os bailes pras crianças no Clube do Jequiá. Infelizmente, tudo isso se perdeu no tempo.

Isabelle de Assis disse...

Que triste realidade...
Pelo menos tens uma boa recordação.

[ Mas e a saudade? O que fazemos com ela? ]

Unknown disse...

O André é foda ! :)

É sem dúvidas o professor que eu mais admiro .

Luís disse...

Que pena que as festas já não mais assim calmas, agora para qualquer coisa já tem briga.

Também queria ter conhecido a Baía de Guanabara quando era limpa, aliviaria nos dias de calores por que temos passado.

Abração André !!